O alerta soou. Com um déficit orçamentário recorde de 19% do PIB devido à Covid – o número mais alto em tempos de paz e o dobro do auge da crise financeira de 2008 – a tributação sobre a riqueza avançou.

De um lado o governo de Boris Johnson, com promessa de que não haveria retorno à austeridade e a dificuldade em lidar com aumento de impostos para a população, após o espectro de 2008, que já havia aprofundado as desigualdades no país. De outro lado, a pandemia, e a necessidade de orçamento para serviços básicos, principalmente depois que trabalhadores de baixa renda, especialmente os do setor da saúde, arriscaram suas vidas na luta contra a Covid-19.

Em meio a esse xadrez, a ideia de promover maior justiça social por meio da tributação para se enfrentar a pandemia passou a ser defendida pelo FMI, em 2020, e rapidamente tomou forma tanto em economias emergentes quanto desenvolvidas, como no caso do Reino Unido, Chile e Argentina.

A urgência das medidas aqueceu com a divulgação dos resultados sobre o acúmulo de riquezas no mundo. As fortunas das pessoas mais ricas somaram mais de US$ 1,8 trilhão em lucros, segundo o índice de Bilionários da Bloomberg. Ao todo, isso representa uma alta de 31% na comparação com 2019 e a maior registrada no índice.

No Reino Unido, no ápice da crise de saúde, alguns bilionários foram acusados de quererem tirar proveito da ajuda pública, recorrendo a empréstimos ou a sistemas de desemprego parcial. O Greenpeace também acusou Richard Branson, fundador da Virgin, de não pagar impostos no Reino Unido há 14 anos e agora exigir que o governo salve sua companhia aérea Virgin Atlantic.

Em meio às especulações, Rowland Atkinson, professor da Universidade de Sheffield, no norte da Inglaterra, e autor do livro Alpha City:How London Was Captured by the Super-Rich chegou a declarar em entrevistas no país: “O dinheiro continua chovendo no topo”.

Agora, após consultas populares em 2020, especialistas da London School of Economics e Warwick University analisam o tema e a A Wealth Tax Commission propõe um pagamento único (One Off) para equilibrar as contas públicas, combalidas pelo combate à Covid-19.

Se for cobrado com alíquota de 1% ao ano, por cinco anos, sobre a riqueza individual superior a 500 mil libras (R$ 3,4 milhões), o tributo poderia arrecadar, já levando em conta o custo administrativo e a evasão, o montante de 260 bilhões de libras, cerca R$ 1,77 trilhão.

Enquanto isso, no Brasil, o debate e estudos sobre a implementação de um Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) continuam a ser ignorados. Para Walter Scheidel, historiador da Universidade de Stanford, “Grandes desastres globais como guerras e pandemias podem fazer uma diferença profunda e reduzir as desigualdades.” Resta saber o que aprenderemos por aqui com a história e também com o presente. Para o professor e economista, Ladislau Dowbor, esse não é apenas um desafio econômico, mas civilizatório.