Título: Quem topa ser honesto?
Publicação: O Estado de S. Paulo
Autor: Daniel Martins de Barros*
Data: 26/7/2021

Certa vez me peguei refletindo sobre os políticos brasileiros como se eles fossem um tema do Globo Repórter: políticos brasileiros, de onde vêm, para onde vão, do que se alimentam? Parecia que se tratava de uma espécie diferente, um grupo a ser estudado antropologicamente como pertencente a uma tribo distinta, quase extraterrestre. 

Foi quando me dei conta de um dos aspectos mais tristes da política brasileira: ela é reflexo do Brasil. O político brasileiro não veio do espaço, não surgiu das trevas (embora às vezes pareça). Não, ele é um de nós. Nós somos eles. Se eles são desonestos, é porque também somos. Se mentem, é porque mentimos. Se não têm cultura, tampouco nós temos. A política reflete a sociedade em que está inserida, não tem como escapar.

O economista comportamental Dan Ariely nos ajuda a pensar sobre a questão no livro A (honesta) Verdade sobre a Desonestidade, relançado pela editora Sextante com um capítulo novo sobre a relação entre religião e honestidade, recheado de histórias bíblicas a ilustrar as tortuosas inclinações humanas e as várias soluções que tentamos dar para elas. 

Entre os seus experimentos, ele e sua equipe comprovaram o que diz o ditado: a ocasião faz o ladrão. Quando têm a chance, quase todas as pessoas agem de forma pouco honesta para obter lucro. Não muito, nem sempre: a maioria de nós tem limites – nos permitimos obter algumas vantagens indevidas, mas não a ponto de nos tornarmos grandes salafrários. Entre os voluntários de seus experimentos, só uma minoria roubava tudo o que conseguia, sem freios morais. Não parece grave à primeira vista. Como os cidadãos comuns atuam no varejo, o prejuízo que cada um gera é pequeno. Mas basta pensar no tanto de gente roubando só um pouco para ver que essa soma acabará sendo maior do que os próprios políticos roubam.

No primeiro semestre de 2021, para se ter uma ideia, a sonegação de impostos gerou um prejuízo de mais de R$ 300 bilhões para o País, segundo cálculos do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. Isso mesmo, bilhões. Já um estudo feito em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário a partir de dados da Operação Lava Jato e de processos por corrupção no TCU calculou que a corrupção quase custa metade disso durante o ano todo, R$ 160 bilhões. Antes de sairmos criticando números ou metodologia, que podem estar errados e não refletirem a realidade, vale pensarmos sobre qual o papel de cada um nos desvios nossos de cada dia.

Existe um aspecto, no entanto, que torna a desonestidade dos políticos mais grave do que a nossa, independentemente dos valores: seu papel social. No capítulo inédito em que reflete sobre a religião institucional e a honestidade, Ariely faz uma análise sobre o mandamento contra dar falso testemunho. Ao contrário do que imaginava ele – e também eu – o pecado ali condenado não é a mentira, mas o perjúrio. Não seria melhor proibir logo de mentir? Por que a proibição de mentir no tribunal? Para ele é porque às vezes uma mentira ou outra pode ser necessária nas relações pessoais e em prol da boa convivência, mas a mentira pública no tribunal corrói a confiança nas instituições, sendo mais prejudicial para a sociedade como um todo. “Se um CEO de um grande banco sai impune após trair seus clientes e por que não poderei fingir que não sei como a TV quebrou ao reivindicar a garantia? E por que eu deveria pagar meus impostos? E por aí vai”, escreve.

Parece-me que isso acontece com a corrupção, sobretudo quando ela não é punida. Ao observar o exemplo que vem de cima – dos políticos no caso – por mais que eles sejam reflexo de nós mesmos, suas atitudes nos influenciam. Deixamos de crer que a honestidade seja possível no País e nos sentimos estimulados a também não ser honestos. “Para que pagar impostos se eles vão roubar?”, pensamos.

Então sim, nós precisamos ser mais honestos se quisermos que os políticos também o sejam. Mas precisamos cobrar honestidade deles para também sermos honestos. E aí, quem começa?

*É professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.